Segunda pele*

Este caminho em que me encontro, nada mais é que uma farsa. Perdi-me como me perco sempre, enrolada na beleza quase etérea da história de amor que poderia ter nascido em qualquer ponto deste rumo… Esta segunda pele, que envergo com o mesmo orgulho com que me levo a mim própria pela vida, nasceu de apenas uma mãe, a arrogância por ser mais que eu própria… Não poderia suportar cara a cara todos os males que enfrentei, porque vivo sob esta vergonha crónica que se apoderou de mim antes de ser quem sou…

Sou mãe desta seguda pele que vo mostro como minha própria essência, sou mãe desta tristeza patente que revelo, sou mãe desta personalidade tão igual a mim… A muitos pareceu estranha esta parecença, a muitos soou desafinada esta melodia que nasceu entre esta pele e a sua mãe, para muitos foi infame esta tão instantânea parceria…

E confesso, esta arrogância não cresce mais que a contade de fazer valer a verdade de ser apenas eu e apenas uma só… Basta ! Digo, tentando afagar o ritmo apressado com que correm as lágrimas pela minha cara… Basta de retirar o mérito da minha própria mãe, basta de falar por esta voz que me soa tão estranha por não ser minha, basta de fazer este encanto próprio perder-se neste rosto alheio… Basta… Serei apenas uma, deixarei a minha mãe para morrer nestas últimas palavras, porque sem ela, sem as suas palavras que digo, eu não teria uma voz tão forte, não teria nascido naquela tarde de Outubro, não teria dito esses poemas que jazem, agora, sem sentido… porque, agora, ser esta segunda pele já não faz qualquer sentido. já não faz qualquer sentido carregar às costas esta tristeza quase indolor…

Tenho, apenas, como últimas palavras, uma pequena carta proferida em silêncio, através dos meus olhos cheios desta dor líquida… A ti, meu anjo, com palavras leves, porque nunca suportaste palavras tristes, te digo, espero que cresça em ti a certeza de saberes da minha essência… Essa essência que encontras nos meus olhos, mesmo que eu a queria esconder, essa essência que cresce, como uma flor, nos encatos felizes das minhas palavras tristes… Entrego-te o segredo pelo qual nunca esperaste e espero, abandonada ao peso desta tristeza, a resposta à segunda palara mais difícil de dizer “desculpa”…

Não seria correcto continuar a entregar o mérito a esta personalidade inexistente com que me mostro… Porque tudo o que eu digo parte apenas de uma voz, uma voz que fala bem de perto e que ganhou poder próprio…

A todos os que partilharam das palavras desta segunda pele um obrigada e a esperança de que encontrarão a minha verdadeira essência numa porta aqui ao lado…

A esse meu anjo, apenas desculpa, porque secaram em mim todas as palavras que eu gostaria de te conseguir dizer…

*Mãe desta segunda pele…

Até sempre

~ por penelopesantana em 13 13UTC Janeiro 13UTC 2010.

10 Respostas to “Segunda pele*”

  1. não se cansa de se superar a cada post? :P

  2. terrivelmente brutal, mas incrivelmente puro.
    congrats!

  3. eu disse no outro post que sua escrita era espontânea, mas não, ela é verdadeira, realmente!

  4. Tudo que é verdadeiro é espontâneo, mas nem tudo que é espontâneo é verdadeiro. Posso fantasiar espontaneamente, sem me preocupar com métodos ou regras, só escrever o que vier do jeito que vier.

    • é verdade… podes fantasiar, mas a fantasia nada mais é que o retrato perfeito de ti, o mais verdadeiro… a mentira exige pensamento, exige técnica, táctica, a verdade apenas é e pode ser dita logo, sem sequer nos darmos ao trabalho de a trabalhar..

  5. Concordo com você…Camus já dizia, a mentira é o nosso relfexo mais verdadeiro.

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